Muitos negócios, na busca por lucratividade, procuram eficiência. Para alguns deles, eficiência é transformar o produto ou serviço no mínimo suportável para as pessoas servidas. Nas plataformas online em particular, esse fenômeno tem nome: ensh*ttification (“Enfezamento”, em uma tradução livre e bem literal) é um termo criado pelo escritor Cory Doctorow em 2022 que se refere ao ciclo de vida das plataformas online: primeiro elas são úteis e criam benefícios aos usuários, depois começam a abusar desses mesmos usuários e privilegiar seus clientes PJ e seus acionistas, piorando gradualmente a qualidade e deixando as pessoas sem alternativas, até a perda completa da relevância que as leva à morte. A ideia ganhou tanta projeção online que foi escolhida Palavra do Ano em 2023 pelo American Dialect Dictionary.

De certa forma, essa ideia não é totalmente nova - empresas de bens de consumo há décadas experimentam substituir matérias primas de produtos por versões mais baratas  para melhorar margens - foi assim que surgiu a cerveja de milho e o chocolate que é fundamentalmente gordura hidrogenada. A diferença é que quando a percepção de perda de qualidade se dissemina, o mercado se auto regula, de várias formas possíveis: por dentro (tornando a qualidade anterior um segmento premium, usando “100% malte” como claim, chocolates bean to bar como um nicho de crescimento rápido, etc.), ou por fora (regulação, migração em massa para outros competidores, etc.) 

Agora, é mais complicado: estamos falando essencialmente de monopólios ou produtos sem alternativas, ou de serviços em que a perda da qualidade só é percebida quando é tarde demais, até pela velocidade em que está acontecendo.

QUANDO MAIS VIRA MENOS

De forma análoga às plataformas online, a síndrome do mais e mais rápido, qualidade a gente vê depois, também chegou à imprensa. Edward Zitron descreveu o contexto em detalhes, e resumiu da seguinte forma:

Every single one of these problems comes back to one point — that far too many industries are run by people who don’t see the customer as the recipient of the value of a product or service. This problem is central to everything I've written, and likely everything I'll ever write. It's bile-inducing and deeply ugly, but awareness is just one step in reversing the course of the Rot Economy.

Como consequência, aconteceu nas tendências - Matt Klein foi o primeiro a alertar. Há uma série de incentivos perversos alinhados para que se publique mais e mais tranqueiras pouco fundamentadas em dados pintadas de “tendências” porque é sabido que esse é um assunto que atrai atenção. Junte-se a isso especialistas autoproclamados que baseiam suas análises nessas pautas. Sabe a fábula do menino e o lobo? Então…

Se olhamos o conceito de forma mais ampla, também aconteceu no vestuário. O americano médio compra 68 peças por ano (2018), 5 vezes mais do que nos anos 80. As forças que empurraram o mercado nessa direção redefiniram expectativas de preço, qualidade e durabilidade - esse é um dos grandes riscos de um setor “enfezado”: a nivelação por baixo. Patagonia entendeu, está tentando combater:

A má notícia é, que como fica claro em alguns dos exemplos acima, a IA já mostrou que seu lado ruim começa a dar as caras muito mais cedo do que outras tecnologias muito impactantes como as mídias sociais. Também chama a atenção como (o mau uso da) IA tem um papel chave na substituição da qualidade pelo volume.

A boa notícia é que quando surge essa piora, há espaço para alguém ocupar o espaço diametralmente oposto (como já dizia o brilhante Al Ries), se que as barreiras de entrada não forem intransponíveis - um grande SE.

MAS E EM INSIGHTS E ENTENDIMENTO DAS PESSOAS?

No negócio de entender pessoas, independente da disciplina, seja UX, CX ou pesquisa de mercado, a mesma lógica do oportunismo unilateral comprado a valor de face por um público sem senso crítico já está acontecendo, com uma grande leva de plataformas prometendo coisas mirabolantes. É um campo de conhecimento mais vulnerável ao “enfezamento” porque os resultados das decisões ruins só são vistos a hora que a casa já caiu e infelizmente tem muito comprador sem conhecimento suficiente. É muito revelador que muitas delas prometem “mais rápido e mais barato”, mas são muito poucas as que prometem “melhor”. Seth Godin já deu a letra…

Algumas, com promessas claramente descoladas da realidade, já despertaram a ira de profissionais de pesquisa, UX e CX internet a fora. O que essa ira não enxerga é justamente a parte mais problemática: é que o público alvo desse tipo de negócio é quem acha que já entende, quem não é capaz de avaliar qualidade, os que acham que demora demais, os que acham que não precisa, os que não entendem como esse trabalho é feito, ou de forma geral, os amadores com um excesso de auto estima injustificável, não os técnicos que dominam (ou deveriam…) o assunto. É justamente aí que mora o perigo - o que será que acontece se a gente “enfeza” a área e as pessoas da empresa que garante a conexão com as necessidades e expectativas de quem paga as contas, e como consequência, protege a empresa do enfezamento? Temos uma responsabilidade coletiva enorme aqui.

O resultado do uso de qualquer plataforma depende de repertório prévio, ou seja, se você não é um expert, não espere que qualquer ferramenta que você usa te torne um. Talvez o melhor exemplo prático disso sejam as ferramentas generativas de imagens - designers, fotógrafos, artistas e pessoas com um bom repertório de técnicas de ilustração, ângulos de câmera, estilos fotográficos, etc. conseguem resultados muito melhores que as imagens com robôs e dashboards azulados que inundaram o Linkedin nesses últimos tempo (aparentemente, ninguém leu sobre ativos distintivos), às vezes acompanhados por textos que parecem ter sido escritos pelo Macaco Louco. Da mesma forma, o repertório melhor implica numa capacidade muito maior de avaliar qualidade e saber o que é “bom o suficiente”.

MAS E AGORA?

Promessas messiânicas e discurso hiperbólico são sinais de alerta em quase tudo - nesse assunto não deveria ser diferente.

O pensamento crítico e a parcimônia são guias muito mais confiáveis para lidarmos com as novas possibilidades tecnológicas do que a amígdala cerebral e a euforia - os investidores da época das .com que o digam. O bom senso sugere experimentos controlados e em circunstâncias que é possível comparar entradas e resultados e focar em ganhar eficiência nas partes operacionais e não nas intelectuais enquanto a qualidade não for balizada. Só é possível fazer uma avaliação objetiva quando se sabe exatamente do que estamos abrindo mão.

Quando a verba está mais curta, existem múltiplas alternativas que podemos considerar: contratar profissionais fracionais, freelancers, transformar determinadas entregas em um modelo “as a service”, entre outras. Colocar despreparados apoiados em ferramentas ou delegar o trabalho totalmente para elas são as piores alternativas possíveis - inclusive piores do que não fazer nada. Se o resultado do nosso trabalho é tomar decisões melhores, não fazer nada e presumir ignorância é muito melhor do que se escorar em evidências sintéticas e dados duvidosos - inclusive no qualitativo.

É importante pensar também no outro lado do discurso da democratização - o tom populista mascara que o expertise e a experiência das pessoas passa a não ter valor e que qualidade não importa e subestima radicalmente a complexidade das coisas - “é simples, você também pode fazer”. Apesar de os aviões comerciais passarem mais de 90% do tempo de vôo no piloto automático, o treinamento de pilotos leva cerca de 1500 horas. Por que uma função tão crítica como conectar as necessidades das pessoas aos objetivos de negócio seria ok de ser delegada a leigos?

Existe um futuro possível maravilhoso com bem menos trabalho operacional, visões mais completas das pessoas que precisamos entender e possivelmente descobertas melhores, mas a chegada dele depende de não acreditarmos soluções mágicas. Parar o enfezamento depende muito dessas escolhas - e há muito em jogo!

Reply

Avatar

or to participate

Continue lendo

View more
caret-right